Certa vez, um guru encontrou um rapaz muito triste, sentado à beira da estrada. Sentindo compaixão por ele, perguntou: – Por que tanta tristeza, meu jovem? – Ah, senhor, não existe nada interessante em minha vida. Tenho dinheiro suficiente nessa mala para não precisar trabalhar mais e estava viajando para ver se descobria alguma coisa atrativa no mundo. Entretanto, todas as pessoas que encontrei nada têm de novo para me dizer e só conseguem aumentar o meu tédio.
Na mesma hora, o sábio agarrou a mala do rapaz e saiu correndo. Quando se distanciou bastante, colocou de novo a mala no meio da estrada e escondeu-se atrás de uma árvore. Depois de certo tempo, o rapaz apareceu, sentindo-se mais miserável que nunca, por causa do ladrão que encontrara. Assim que viu a mala, correu até ela. Ao perceber que seu conteúdo estava intacto, olhou para o céu e, cheio de alegria, agradeceu a Deus por tanta felicidade. Atrás da árvore, observando a cena, o mestre refletiu: – Certas pessoas somente sentem o sabor da felicidade quando a perdem.
Assim são muitos empresários, que eram felizes e não sabiam, quando a empresa crescia a olhos vistos e o dinheiro vinha com facilidade. O tempo passou a firma cresceu e, à medida que crescia perdeu-se o controle. Do mesmo jeito que subiu, desceu.
O padrão de vida que em tempos anteriores era frugal, agora consome todo o lucro e um pouco mais. Foram atraídos por um estilo de vida de luxo e passaram a consumir tudo que ganham para mantê-lo.
E o pior é que não conseguem mais retornar ao padrão anterior. Como explicar para os filhos? E os amigos, vizinhos, e conhecidos o que vão falar?
Até gostariam de reduzir as despesas, mas é quase um trauma familiar. Se antes era um carro usado, hoje são dois financiados. Se antes era uma casa pequena, agora é uma bela morada. Se antes filhos estudavam em escola pública, agora é na melhor escola. Como abrir mão de tudo isso?
É tão difícil essa situação que muitos se agarram a empréstimos e mais empréstimos para socorrer o caixa combalido pelos prejuízos irreversíveis. Grudam na rolagem dos pagamentos e postergando a solução, que mais dia, menos dia virá, e infelizmente mais difícil, quando não, irreparável.
Considere algumas reflexões: Será que seu estilo de vida atual atende aos seus reais interesses pessoais ou são para satisfazer os amigos, vizinhos ou conhecidos que quer impressionar? Para viabilizar a empresa, por vezes, você terá de abrir mão de alguma coisa, mesmo que seja agradável hoje.
Será que a empresa tem mesmo recuperação? Sempre é tempo para desapegar dela para refletir com isenção de ânimo, fazendo a melhor escolha.
Será que a felicidade é somente ter dinheiro para gastar? Ou é vivenciar valores, princípios e propósitos pessoais? Podemos conviver com pessoas que reflitam nossos reais interesses.
Muitas vezes gostaríamos de gastar sem nos preocupar com as conseqüências financeiras. São lembranças de nossa infância, onde podíamos viver nossas ilusões e deixar que os pais cuidassem do dinheiro.
Você hoje é milionário, pois tem saúde, disposição e condições de produzir muito. Não espere que a vida (ou o ladrão) lhe pregue alguma peça para você acordar, ver que é feliz e começar a poupar. Pense nisso, mas pense agora.
Saulo Gouveia é consultor financeiro e organizacional, e atua oferecendo novos significados para viver as virtudes em abundância. Articulista de A Gazeta, escreve neste espaço aos domingos. saulogouveia@seubolso.com.br ou www.seubolso.com.br